quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Epidêmico



A ilusão do armistício acabou. Quem eu sou e quem eu deveria ser declararam a guerra latente em mim. A história desta guerra não é contada por mortos ou sobreviventes, é cantada pelo vivente, que assim o é por não poder ser outra coisa. O louro desta disputa é a sanidade, a loucura com método; é a produção na qual a potência deve se realizar
O ser e o dever ser não se desejam mais, talvez nunca tenham se querido, nunca tenham se apaixonado. É provável que sequer se conhecessem. Impregnam meus sentidos, tentam acordar uma paz fatídica na utopia renovada e estes, num espelho sem aço e sem vidro, não vêem seus reflexos no mundo.
O capitalismo global e includente me jogou em sua roda, me deixou a queimar mansamente em sua fogueira de vaidades. A necessidade do capital excludente não me abre possibilidades, não respeita minhas liberdades. Os carinhos, a atenção, a solidariedade que me gracejam são embustes quando colididas com os interesses do lucro.
Não confio na realidade; não que eu duvide dela, apenas não consigo me exercer nela, não posso despencar meu corpo nem meu amor em seu abismo, pois sei que o fundo não chegará. E desta realidade capenga de sentido, abalroada de sinais, se ergue um castelo de cartas que meus sentimentos constroem e a vida destrói.
Nesse embate meu juízo não ajuíza, meu dever ser não se impõe, meu ser não se assossega, minha razão não reina, minha dor não cura, meus sentidos não apontam, e eu, perdido no Outro e em mim, não sei mais quem eu quero ser. Preciso relembrar por que eu quero ser.

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